• Pinterest (sem autoria). Não consegui achar a imagem primeva. 😦

    Me afastei da multidão. Fazia calor. Calor demais. Subi a rua, rumo a um ponto que era mais fresco. Em sentido contrário, pessoas suadas e coloridas desciam animadas, falantes, como manda o figurino do Carnaval. Já passava das seis, a luz já estava bem baixa, mas o dia seguia claro. Quase no topo da rua, avistei a mureta de uma casa velha que conheço desde a adolescência e me sentei. Tirei um cigarro da pochete, que logo percebi imprestável, pois um saquinho de purpurina (que não era meu, mas que sabe-se lá por que diabos concordei em guardar) havia estourado e abrilhantado de modo irremediável tudo dentro.
    “Merda!”.
    Havia me dedicado, com relativo sucesso, a impossível tarefa de evitar ser excessivamente abraçada por corpos purpurinados durante o bloco. E agora estava ali, olhando todas as minhas coisas carnavalescamente cintilantes. Nenhum mísero cigarro sobreviveu.
    “Merda!”
    Respirei fundo e comecei a tirar tudo da pochete e tentei limpar o melhor que pude. Dava pra ver que um tanto de purpurina se acumulava no fundo. Deixei as coisas em cima da mureta, pulei na calçada e virei a pochete do avesso. Péssima ideia.

    Na mesma hora, o vento, encanado pelos prédios e que deixava o alto daquela ladeira tão convidativo naquele fim de tarde infernal, soprou forte, fazendo todo aquele glitter rodopiar pelo ar como um pequeno furacão, que começava nos meus pés e terminava no topo da minha cabeça. Ali, me rendi. Aceitei a derrota. Por hoje, bastava de vicissitudes carnavalescas.

    Subi novamente no murinho e enquanto antecipava toda aporrinhação que seria tirar aquele brilho do meu corpo e cabelos, olhei uma última vez para os cigarros brilhantemente arruinados na vã esperança de que algum deles pudesse ter sido poupado. Nenhum. Zero. 

    Não me restava muito o que fazer a não ser descer a rua e avisar as amigas de que era chegada a hora da minha partida. Mas antes de saltar para o chão novamente, eu o vi, do outro lado da rua, de pé, encostado num muro alto, quase de frente pra mim, me olhando. Não sei a quanto tempo ele estava ali parado, só sei que fumava.

    Poucas vezes senti tamanha urgência por um cigarro. 

    Firmamos o olhar um no outro por um bom tempo. Desviei. Olhei de novo. Ele desviou, tragou, olhou de novo. Ficamos assim, nessa espreita sem disfarce. Até que chegamos naquele limite do chaveco visual, onde a coisa vai perdendo o molho caso os espectadores não partam para alguma ação. Daí me acendeu uma faísca nas ideias, trazida por outra lufada de vento que desceu ladeira abaixo.

    Peguei o celular e só precisei de poucos segundos para desenterrar o contato. Escrevi: “Tira a camisa” e mandei. Voltei a me enganchar no olhar dele novamente.

    Do outro lado da rua, o celular tocou ou vibrou, pois o vi colocar a mão sob o bolso do short. Mas ele não pegou o aparelho. Escrevi de novo.

    “Tira a camisa pra mim”.

    Na segunda tentativa ele pegou o celular. Leu e me fitou de volta, levemente incrédulo. Sustentei a leve incredulidade com serenidade.

    Do meu lado da rua, repeti, usando a boca: “tira”.

    Estávamos a uns dez passos de distância, mas pude vê-lo tentando não rir, segurando a nuca e olhando para o chão, do mesmo jeito que já o tinha visto fazer algumas vezes, anos atrás. Guardei o celular e me mantive sentada, esperando.

    Quando ele levantou a cabeça, encompridou os olhos pra cima de mim, e logo depois começou a espiar quem mais estava em volta, como se ficar sem camisa na quentura do Carnaval fosse uma quebra de decoro das mais escandalosas. Depois do curto escrutínio,  percebeu que as pessoas subiam ou desciam a rua sem prestar atenção na gente. Nossa breve história seguia invisível a olhos vistos.

    Daí ele tirou. E não escondi um sorriso que certamente mostrou todos os meus dentes. Demorei-me nele um tanto de longe, antes de chamá-lo para perto. Achei-o tão bonito assim, na outra calçada, de peito aberto, esperando um sinal meu, com o cigarro pendurado nos lábios.

    Fiz um movimento leve com a cabeça e ele veio vindo, sem pressa, com o cigarro na mão esquerda, a camisa embolada na direita e um arranjo colorido na cabeça. Mais um vento passou e com ele me veio mais uma vontade. Abri a pochete e passei a palma da mão na parte de dentro, salpicada de pó furta-cor.

    Ele se achegou, ficando de pé na minha frente. Ainda sentada na mureta, mostrei minha mão faiscante e perguntei: “Posso?” “Pode”, disse ele. Pousei a mão no alto direito do torso dele e desci, desenhando brilho até o quadril.

  • Acordei feliz. Difícil não ficar feliz quando se está. Às vezes faço força pra não ser, mas hoje não deu não. Pois acordei com cama, teto e bananas maduras pra uma vitamina gelada e um pão dormido na chapa. Acordei com fotos e mensagem de uma amiga querida, dizendo que tinha chegado e tava tudo bem, lá do outro lado do mundo. Acordei depois de uma festa boa, com boa música e boa companhia. Antes ainda, fui a uma Gira e tomei um passe, algo que eu nem sabia que faria quando acordei ontem. Acordei, gente, vejam bem, com Paulinho da Viola me falando qual é a “Solução da Vida” em forma de molejo dialético. Puta que pariu. De quebra, ele coloca em palavras cantadas uma coisa que me bola há dias, disso que não há diferença entre “razão e emoção”, pois é tudo farinha do mesmo saco quando se trata de buscar felicidade. Tipo, não tem muito jeito porque o jeito é esse mesmo. Sem jeito. Acordei com esse grande mestre, dizendo o que mestres budistas me dizem todos os dias, mas torço a cara quando ouço: “a vida, Samyra, não tem solução”. Daí que hoje fiquei feliz assim. Sem solução. Amanhã não estarei feliz, provavelmente. Mas hoje estou. Ou melhor, agora. Porque daqui a uma hora já estarei putaça. Mas é muito difícil não ficar feliz quando se dorme bem, né? Daí que teve isso também. Dormi bem. Desejo um bom dia a todos. Mesmo. Se um dia não for possível, pelo menos umas horas. Ou minutos. E pão na chapa e cama limpa. E mensagem de gente querida. E dança e música. E Paulinho da Viola. Ouçam dialeticamente. Pois não tem jeito, não, gente.

    *Escrito na manhã de 27 janeiro de 2018.

  • Universum, por Camille Flammarion
    Universum, por Camille Flammarion

    Fim de ano. Fez sua consulta anual costumeira com o astrólogo. Sua revolução solar indicava uma abertura para o amor e um romance poderoso, fulcral. Após dois anos recuperando-se da separação, de tentativas frustradas aqui e ali, a boa nova astral soou muito bem aos seus ouvidos.

    Foi certeiro. No período previsto, a pessoa brotou. Nada de amor à primeira vista. Até porque, já conhecia essa pessoa. Sabe-se lá por quê, a aproximação adequada, que poderia perfeitamente ter acontecido antes, só aconteceu agora. Naquele momento. Era destino.

    A coisa toda se deu aos poucos. Divertida. Leve. Tinham coisas em comum na medida certa. Se desencontravam agradavelmente. Sentiu-se bem, como se estivesse enfim encontrado terra firme depois de nadar muito tempo à deriva. 

    Moraram juntos. Adotaram um gato, um cachorro e, depois de um tempo, duas lindas crianças. A vida seguia, altos e baixos, como de qualquer casal. Seguia. Todos juntos.

    Fim de ano. Fez sua consulta costumeira com a astróloga. Sua revolução solar indicava uma tendência a um compromisso duradouro e maçante. Indicava-se aceitar com resignação. Após um longo período experimentando as consequências de suas estupidezes, sentia que precisava se endireitar na vida.

    Foi certeiro. No período previsto, a pessoa brotou. Nada de amor à primeira vista. Nem na segunda, nem na terceira, nem nunca. Já conhecia a pessoa. Sabia que serviria. Sabe-se lá por quê, a aproximação adequada, que poderia perfeitamente ter acontecido antes, só aconteceu agora. Naquele momento. É o destino.

    A coisa toda se deu aos poucos. Morna. Monótona. Tinham poucas coisas em comum, na medida certa. Se desencontravam tediosamente. Sentiu-se bem, como se estivesse enfim encontrado terra firme depois de nadar muito tempo à deriva. 

    Moraram juntos. Adotaram um gato, um cachorro e, depois de um tempo, duas lindas crianças. A vida seguia, arrastada, plana, sem fim. Seguia. Todos juntos.

    Do alto, os astros olhavam. Impassíveis.

    De baixo, olhamos, sempre passíveis. Escutando nossas próprias vozes fazendo eco no teto do céu.

  • Post 28 sem título

    Havia um homem que amava muito uma mulher. Essa mulher o fazia muito feliz e, por ser tão feliz, ele dizia o tempo todo: “Te amo”.

    A mulher, quando o ouvia dizer isso, sorria, o enlaçava pelo pescoço e pousava um carinhoso e quente beijo em sua boca. Mas ela nunca retribuía o amor dele com um “te amo”.

    Nem em momentos de absoluta ternura mútua, nem na intensidade do sexo, nem no  mormaço depois do prazer, nem quando ambos conseguiam algo e celebravam.

    Ainda que ele palpavelmente sentisse na firmeza e na materialidade coesa e constante dos gestos, dos sorrisos e do olhar pleno de satisfação que o rosto e o corpo dela emitiam em sua direção, o “te amo”, nunca veio.

    No início ele deixava por menos. Achava que aquilo não era importante. Mas com o marchar dos anos, tornou-se insuportável a contradição entre o que ela fazia e o que não dizia.

    Ele tentou fazê-la entender o quanto era importante ouvir que era amado. Ela, por sua vez, insistia que não podia dizer o que não sentia. E suplicava, desesperada: “Nunca fui tão feliz como sou com você! Nossa felicidade, nossa vida, nosso dia a dia, não é suficiente?!”

    “Não!”, gritou ele ferozmente, batendo a porta pra nunca mais voltar.

    O homem enfrentou anos de um calvário para esquecer aquele amor não correspondido pela palavra. Até onde soube, a mulher que não dizia que o amava, até de cama ficou quando ele foi embora.

    Mas ele se refez. Acabou por conhecer uma outra mulher que o embriagava fartamente de “te amo”. No início aquilo o envaidecia e nutria, repetindo para si mesmo: “isso sim é que é amor!”.

    Porém, com o marchar dos anos, tornou-se insuportável. Pois a insistência com a qual era lembrado de que era amado evidenciava uma felicidade opaca, uma vida apática de um dia a dia sem sentido e sabor.

    Até que um dia, caminhando na volta de uma consulta, ao dobrar uma esquina, viu a mulher que nunca lhe disse “te amo”. Ela estava com um outro homem, despedindo-se.

    O outro homem entrou no carro e foi-se embora. Mas antes, estalou um beijo na bochecha da mulher que, em resposta, disse “te amo”.

    Pelo encontro inesperado e por ter ouvido aquilo que sempre quis, ser dito a outro, ficou estatelado na calçada.
      
      Ela o vê. Se aproxima.

    Os dois ficam em silêncio.

    “Você ouviu?”, pergunta ela.

    “Ouvi”, disse ele.

    Silêncio.

    “Que bom que você encontrou alguém para dizer…”, ele prossegue.

    Ela dá um meio sorriso e diz: “É. Eu o amo e digo. Mas gostava mais de quando eu era feliz”.

  • Assombro

    Fatia fininha de lua no céu.
     Li que se chama fino crescente lunar.
     Aparece próximo ao pôr do sol. Todo mês tem.
     O brilho dessa lua tão fina se chama luz cinérea, que não é luz da lua, mas sim do sol, que reflete na Terra e só depois se torna luar.
     No breu do universo, nem tudo que brilha tem luz própria. Só as estrelas brilham por si. E as estrelas, apesar de serem coisas da noite, quando estão muito perto da gente, viram coisa do dia e passam a se chamar sol.
     Quando morrem, as estrelas viram buracos negros que comem de tudo. Até luz. Dizem que comem até o tempo.
     Parada no píer, vendo o crescente lunar brilhar com uma luz emprestada de um sol-estrela ainda jovem para a idade dos corpos celestes, dei-me conta, mais uma vez, do assombro indecifrável de causas e condições que torna possível estar de pé, aqui na Terra, olhando a lua. 
     
     Aí minha barriga roncou, um moço bonito passou e me lembrei que precisava comprar um livro de presente para uma amiga. Me reconfortei com as dimensões diminutas das minhas questões, que me ajudam a suportar a beleza esmagadora do infinito e do indizível.

    25.06.2017